sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

FELIZ ATÉ ONDE DÁ


Não acredito em felicidade completa. Pra gente ser feliz dependemos não só de nós, individualmente, mas, das pessoas que nos cercam, especialmente, àquelas com as quais convivemos.
Se alguém é casado, por exemplo, sua felicidade depende, em parte, do seu cônjuge. Pense em uma situação em que você está cheio de boa vontade e seu cônjuge não coopera ou que você esteja tranquilo e seu (a) companheiro (a) esteja promovendo um “inferninho”. Como você poderá ser feliz, a despeito da situação em que está inserido?
No caso de um pai ou mãe, parte de sua felicidade dependerá das atitudes e comportamentos de seu filho. Como se sentirão felizes, quando assistem sua prole cruzar a linha da marginalidade, drogas ou qualquer outro tipo de rebeldia? Certamente, seria hipócrita a afirmação de que esses pais sejam completamente felizes.
Alguém que consegue o trabalho tão desejado, embora feliz com a realização, sua completa felicidade dependerá da atuação conjunta com os demais colegas de profissão. Se não houver, no mínimo, um entendimento profissional entre eles, a alegria daquele estará comprometida, porque lhe faltou o bem estar no ambiente de trabalho.
Por isso digo que nossa felicidade pra ser completa depende, em parte, de outrem, e ninguém pode ser feliz por si só independente do que acontece em sua volta. Nossa felicidade é condicionada, e, o problema é que as pessoas, que são indispensáveis pra essa realização, são todas elas, imperfeitas. Como, porém, conquistamos a plenitude se lidamos com o finito e falho? Como seremos completos, se todos nós sofremos variações de gostos, pensamentos e ideais?
Não concordo com quem pensa que felicidade não existe, mas também discordo de quem acredita que nessa vida podemos gozar a felicidade completa; de quem acha que podemos atingir o limite de estarmos tão satisfeitos á ponto de dizermos aos nossos anseios: - Basta!
 Sempre haverá um vazio a ser preenchido no coração do ser humano. Nada por mais realizador que seja será capaz de nos dar a sensação permanente de satisfação total.
A vida é uma busca constante: quando bebê, buscamos andar com segurança, mais tarde, já tendo aprendido a andar, ensaiamos correr, até ficarmos peritos em nossas carreiras, e um dia o homem deseja desesperadamente voar (daí o avião como minha testemunha). Há algo no ser humano que o faz querer e querer... Há algo que o impele a sempre desejar mais do que o que conseguiu. Por isso, quando o rapaz se casa ele sente-se completo, até sentir falta de um filho, ou até mesmo da sua liberdade perdida.
Penso que felicidade não é quando temos a sensação de estar completos, mas, quando sentimos que estamos satisfeitos. Vou tentar explicar o que quero dizer: Sabemos que estamos saciados, não porque não conseguimos mais comer, mas porque sentimos que não necessitamos mais do que aquela porção que comemos.  Satisfação, aqui, não é a ausência de vontade, mas a consciência de que não precisamos mais que aquilo.
Pra mim, ser feliz, é quando, a despeito do nosso vazio interior podemos olhar a nossa volta e nos sentir bem. É quando, apesar da nossa vontade de “comer” mais, conseguimos detectar que estamos saciados. Ser feliz é quando, após somar cada situação em que nos envolvemos (amizade, família, trabalho, enfim), temos a certeza que dá pra tocar a vida pra frente. 


Leila Castanha

Fevereiro de 2011




2 comentários:

  1. Leila, sua reflexão me levou a lembrar de Paulo, o apóstolo, em sua afirmação: “(...) mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. (Fl 3.13, 14) O mesmo apóstolo, antes de indicar diretamente o seu propósito, sobre as coisas que dantes valorizava, sobre essas coisas, afirmou que as tinha por escória, para que pudesse ganhar a Cristo.

    Talvez, o maior sentido da felicidade é alcançar o que foi e nos está proposto por Cristo Jesus. Mounier já nos indica que a vocação, e a sua vivência, é o princípio que nos faz viver perto da plenitude, ou seja, faz-nos viver inteiramente como pessoas, pelo fato de vivermos para pessoas, como a Igreja, e cada membro dela, que no serviço de sua vocação, se insere de maneira apropriada, como um membro específico do corpo, e nesse serviço, faz o que deve ser feito para proveito do corpo. Talvez a felicidade é um constante vir a ser, é algo que está sempre para ser alcançado, e, não é a tentativa direta de alcançá-la que nos fará gozar as suas benesses; o que aprazerá nossa alma, nossa vivência mais profunda, é a busca da vivência de nossa vocação – pois, “mais bem aventurada coisa é dar do que receber”. (At20. 35). É servindo, ou seja, vivendo a nossa vocação, que oferecemos o que realmente temos - o dom de Deus -, para ser compartilhado com o próximo. Oferecendo esse dom, estaremos trilhando a ventura que nos levará para o mesmo alvo que o apóstolo Paulo, a saber, a plenitude dos tempos.

    Alcançar o entendimento sobre a felicidade exige de nós muita ponderação. Exige tempos de reflexão. A fim de alcançarmos maior entendimento, é interessante o diálogo com outras culturas e outras pessoas. Os estoicos nos indicam que felicidade está ligada com a maneira que olhamos para nossa realidade, segundo essa escola, felicidade é perceber as coisas que se tem, e infelicidade é perceber as coisas que não se tem. Segundo essa visão, se enfatizarmos o que alcançamos e o que possuímos estamos mais próximos da felicidade; se enfatizarmos o que não possuímos, dando vazão para a ansiedade e o desejo, estamos mais próximos da infelicidade. Por sua vez, Mounier fez de seu sofrimento, a doença de sua filha que a levou ao óbito, a matéria prima para se aproximar mais dos que sofrem, ou seja, permitiu que uma fatalidade redundasse para a glória de Deus. A vivência de Mounier, que fez da tragédia motiva para agir, se associa ao ideário bíblico, mas especificamente, a assertiva de Paulo: E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Rm 8. 28). Baseados nessa afirmação, pela fé, regozijemo-nos no Senhor, pois, segundo a sua graça, “os que semeiam em lágrimas segarão com alegria. (Sl 126. 5). Porém Leila, as consolações que destaco não invalidada, de forma alguma o que você escreve, pois, em muitas vezes, em nós, o espírito está pronto, mais a carne é fraca, como lamenta o apóstolo Paulo: miserável homem que sou. Mas, para que alegria volte a nos visitar, necessitamos voltar as promessas do Senhor, que pode, efetivamente, nos proporcionar alegria. Como afirma o apóstolo João:

    Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra.
    (1 João 1:4)

    Saúde.

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    1. Lailson,

      Compreendo perfeitamente o que você destacou em suas linhas, e creio que não fugiu do meu raciocínio transcritos no texto comentado.Sem dúvida alguma, creio de todo o meu coração que sem Cristo não há felicidade, pois conforme disse o salmista "na presença do Senhor há abundância de alegria" (Sl 16:11). Reitero as minhas palavras de que acredito na existencia da alegria, porém não na sua plenitude aqui na Terra. Pois entendo que na condição de imperfeitos e limitados não podemos conceber a alegria total (com a ausencia de tristeza), paga do pecado do homem, enquanto vivermos nesta condição carnal, pois, apesar de pertencermos à Cristo, muitas vezes nos acontece conforme narrou o apóstolo aos gentios: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem que quero...mas o mal que nao quero isso faço". (Rm 7:18-20). Assim, penso que embora sinceros cristãos, só seremos plenamente felizes, isto é, sem sofrermos nenhum tipo de tristeza quando estivermos vivendo no Céu onde o Senhor enxugará de nossos olhos toda a lágrima. (Ap7:17)

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