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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

VIDA MECÂNICA



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Bem disse ¹Adélia Prado: O trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a  noite, a madrugada, o dia (...).
No nosso viver diário conhecemos muitas coisas que se movem, porém não vive. O relógio, que marca cada segundo e rege nosso tempo é uma delas.  Apesar de reger nossa existência ele mesmo não é. Sua função resume-se em se mover no ritmo calculado de seus ponteiros. Move-se, mas não vive.
O automóvel que avança em velocidade frenética, indo e vindo ao aperto do acelerador, movido pelo motor que o impulsiona, vai e vem na direção apontada pelo volante que por sua vez move as rodas. O carro move-se, porém não vive.
O instrumento musical de afinados acordes enche a alma ao mais relapso ouvinte. Sua melodia pode mudar os sentimentos atuais de um ser, transformando-o em ofegante gozo ou em melancólica tristeza. A música, tocada nas cordas ou no sopro de um instrumento musical, faz acontecer o que o silêncio nem sempre alcança. Como magia ela move-se em acelerado som na alma carente. Move-se, mas não é um ser vivo.
O cata-vento no alto de um moinho capta o vento e gira conforme a intensidade de seu assopro. Roda lenta ou violentamente cortando o ar ao entorno de si. O cata-vento move-se, mas não vive.
 O relógio marca a hora, a máquina fotográfica tira fotos, a Televisão reproduz imagens e sons nela gravados, o telefone interliga as vozes que viajam no espaço até o ouvido que dele se apropria, o automóvel movimenta-se, segundo a potência de seus motores, a geladeira gela, o chuveiro espirra água, o barco flutua sobre o rio, o avião trafega pelos ares etc. Todos se movem e executam uma ação em maior ou menor escala. Agem com perfeição, deixando o homem em êxtase admirando suas operações mecanicamente programadas. Movem-se com destreza, porém não vivem.
Algumas pessoas passam pela vida da mesma forma. A exemplo de um relógio sua existência é resumida em organizar a vida dos outros enquanto o tempo vai gastando-lhe as pilhas ou travando-lhe as cordas, e, por fim, sem repararem no próprio tempo, que tão bem administram em prol da vida alheia, envelhecem e morrem agindo muito e vivendo pouco.
Gastam-se, alheios ao correr do tempo, enquanto mecanicamente trabalham, ensinam, aconselham, são presentes e oportunos na vida dos filhos, do cônjuge, dos colegas, dos amigos particulares, da comunidade, sem se darem conta que em relação a si mesmos inexistem e se rebaixam à mera coisa.
Coisas podem mover-se segundo suas programações, mas apenas seres humanos podem viver. Quando nos despojamos de nossa capacidade de escolha, nos fazemos comparáveis à coisas, que, apesar de práticas e necessárias, existem apenas para cumprir uma ação programada e satisfazer os desejos egoístas. Rebaixamo-nos a existir como "Algo" no mundo, quando negamos nossa ambição lógica que seria a de vivermos sendo “Alguém” no mundo.
Não somos coisas para levarmos em nós a assinatura alheia. Somos seres, cuja vida, com seus ofícios e designers, deve ser escolhida segundo nosso gosto particular. Somos seres, cuja história deve ser escrita de próprio punho, e cujo exterior de nossa capa deve conter a imagem que nós mesmos escolhemos, a fim de dar aos leitores da vida alheia aquilo que pretendemos que de nós se leia.
Não somos coisas. Coisas são feitas para serem usadas a fim de satisfazer a necessidade de outros e servir ao prazer alheio.
 O valor dos objetos é medido pela necessidade que se tem deles, mas para mim, o valor de alguém é medido pelo o que as pessoas são.  Somos alguém, e não algo.
Ser alguém é não deixar-se mover pelo ritmo mecânico das massas, nem pelo mecanicismo da mídia, ou ainda, pelo círculo vicioso do ensino bancário. É ver a vida, segundo a ótica de Paulo Freire, na qual os homens são seres programados, apenas para aprender. Dentre tantas coisas, aprender a ser gente e não coisas.
Ser gente é não mover-se sem direção, e nem agir direcionado por outros, despido dos próprios ideais. É absorver as coisas externas e processá-las no interior, buscando o impulso da ação na capacidade reflexiva do cérebro.
Ser Alguém é fazer coisas, renovar as coisas e ignorar as que não nos acrescentam.
É, acima de tudo, viver, negando-se a existir no movimento mecânico, onde não há perspectivas, nem ideais. 
Viver é refletir nossas ações para não nos movermos com os pés da massa ou com a cabeça da mídia. Porque, na qualidade de seres vivos e vivendo num mundo de coisas fúteis e materialista, viver é não se dar ao descaso de ser mais uma coisa com cara de gente.

Leila Castanha
01/2015


¹Adélia Prado:  O verso citado faz parte do poema “Explicação de poesia sem ninguém pedir”.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PLANETA SECO: VIDAS SECAS


O grande problema de nós, brasileiros, é que somos acostumados a gastar na fartura sem pensar nas consequências futuras. Gastamos tudo o que temos, e depois fazemos escândalo porque queremos e não aceitamos não ter nossos desejos a disposição.
Assisti a um filme (10.000 a.C.), no qual o velho sábio contava a sua tribo a seguinte história: Havia um homem que viva triste porque sonhava em possuir muito e nada tinha. Certo dia, uma águia lhe perguntou o que queria e o homem lhe respondeu que queria uma visão ampliada ao que a ave lhe concedeu.
Depois, a onça lhe fez a mesma pergunta e o homem respondeu que seu desejo era ser forte. O animal lhe deu a sua força. Um a um, os animais da floresta concederam-lhe os desejos, doando-lhe o que de melhor possuíam, segundo a vontade do homem.
 Por fim, um dia o homem voltou à natureza para pedir-lhe mais coisas. No entanto, deparou-se com o Mundo que lhe disse:
- Sinto muito, amigo, mas você já tirou tudo de bom que eu poderia te conceder, agora não mais existo, logo, não posso te dar mais nada.
Essa história me fez refletir sobre a nossa situação em relação à falta de água.  Gastamos de uma vez o que deveria ser gasto em anos, e, depois, queremos exigir da natureza que nos dê o que precisamos.
A floresta Amazônica é um dos tristes exemplos da ação devastadora do homem. Na ganância de possuir, suas árvores foram inescrupulosamente derrubadas e suas matas queimadas, de forma que parte dessa enorme área verde deixou de existir.
Nossos rios foram sendo poluídos, e hoje todos os olhares estão voltados na escassez de água que estamos vivendo. A mídia concentra sua atenção em medidas para recuperar a perda desse bem comum que é o símbolo da vida. Ninguém pode viver sem água, no entanto isso tem sido esquecido pelos governantes que só pensam em encher seus bolsos do cofre público, mas não se lembram de que colheremos amanhã aquilo que plantamos hoje.
No tempo presente choramos a falta de água, mas num futuro não muito distante, será a energia que nos faltará. A energia física, por não possuirmos mais a fonte da vida (pois sem água ninguém vive), e a energia elétrica (que é gerada por esse líquido sagrado).
Talvez você pense que ficar alguns dias sem banho ou com a casa suja não mate ninguém. Muito bem! Agora reflita: Você sujo, sem ter muito que fazer, pois grande parte de nossas tarefas diárias exigem a utilização de água, em recesso da escola (sem água as instituições param), racionando a ida ao trabalho, e... sem Tv, sem internet, sem telefone (o sagrado celular descarregado por falta de energia), tendo de ir para a cama por conta da ausência de opção e de luz elétrica.
Paremos com essa atitude de chorar o leite derramado e passemos a vigiar o ‘leite’ para, pelo menos, não desperdiça-lo mais por falta de nossos cuidados.
Coletar água da chuva, utilizar as águas desperdiçadas das máquinas de roupa para lavar o quintal ou a calçada, ao invés de utilizar mangueiras, que, segundo pesquisas, desperdiçam enorme quantidade de água, são pequenas atitudes que podem cooperar na diminuição desse desperdício.
Chega de nos equiparar ao vizinho retardado que não consegue ver um palmo a frente do próprio nariz, e sejamos o vizinho correto que inspirará os demais a tomar sábias atitudes.
Sei que o povo não pode ser o único culpado pela escassez de água, mas todos nós, nas devidas proporções temos nossas culpas.  Provavelmente, não poderemos salvar o mundo, mas o mundo só é mundo por causa da somatória de pessoas que o compõe.
Assim, cada um fazendo um pouquinho conforme suas possibilidades poderá tirar nosso planeta dessa crise seca, e ele retribuirá devolvendo-nos o líquido sagrado, fonte de nossas vidas.

Por Leila Castanha

2014

sábado, 29 de novembro de 2014

VIDA: VIA EXPRESSA PARA A MORTE

http://www.motoliberdade.com.br

O coração vazio pela partida premeditada. Não sei quando, mas sei que um dia partirei desta existência para não sei aonde. Minha fé vacila como as ondas do mar, que ora se fazem brincalhonas e voltam à serenidade, e ora arrasa tudo a sua frente, tudo que dantes era real para mim, se desfaz carregado pela fúria da descrença.                                                                         
Vou, em dia e hora que não sei, e essa partida talvez não me seja de boa vontade. Isso me enerva e faz-me ver a vida nebulosa. Um futuro incerto e um destino sombrio rondam meu porvir.
Vejo gente que foi e nada mais é do que lembranças, que se desfazem qual fumaça quando o ardor do fogo se esfria pelo tempo. Pessoas que, mesmo quando nos tiravam a paciência, estavam dessa forma fazendo-se presentes em nossa existência. E agora são sombras, que mal conseguimos vislumbrar.
Não sei como é possível viver a vida quando ela é cercada pela sombra da morte iminente, que vem apresentar-se a nós na imagem de diversos rostos conhecidos.  Na face de um ente querido, um amigo insubstituível, um artista amado, um amor antigo, um alguém que marcou a nossa vida, e vem dia após dia, nos fazer lembrar que o fim de todos os viventes é uma cova fria e solitária.
Quanto mais se vive, mais de perto a morte se nos faz conhecida: No silêncio sepulcral em que se tornou a voz do pai que nos fazia rir e conosco gargalhava; na canção em que a mãe  cantava à beira de nossa cama, cuja voz tornou-se muda; na quietude da  casa que o marido tumultuava com seus trejeitos faceiros;  na ausência do artista, cujo personagem nunca mais abrilhantou as cenas; nos coveres que imitam o ídolo, cuja fisionomia já é quase apagada da memória dos fãs.  
Até que um dia nos cansamos de perder, e o tempo cansa de tentar nos convencer a aceitar a vida como ela é, e a vida cansa de suportar nossas lamúrias, e o mundo cansa de tentar se ajustar às nossa mudança, e por fim, nos unimos à morte, sem sequer podermos dizer aos que ficam para onde vamos, e quem será nosso vizinho no além-túmulo.
A vida é um labirinto. Não importa  qual caminho escolhemos, o fim é sempre a cova escura e silenciosa. Se vivemos bem, morremos, e se vivermos mal, teremos o mesmo fim.
Estudamos, trabalhamos, amamos, adoecemos, sofremos acidentes e incidentes, rejubilamo-nos, festejamos, conquistamos, e por fim... Morremos.
Tudo o que fazemos em vida, é, portanto, uma preparação para morrermos: com dignidade, ou como praga que todos desejam ver exterminada. A vida é só um estágio, mas a morte é o game over.  Pelo menos na esfera terrena, para os que, como eu, têm a esperança de uma vida póstuma.
A vida, seja ela curta ou longa, resume-se em uma palavra: Morrer.  A verdade é que a vida é sintetizada em uma caminhada, longa para uns, e curta para outros, cujo fim é nos levar ao nosso começo: Voltarmos a ser pó.
Vivemos como alguém que sai de casa todos os dias, sem ter a menor ideia se voltará  em segurança.  A morte é covarde como o ladrão que leva o salário de um mês inteiro do pobre trabalhador. Lutamos, lutamos, nos programamos, investimos na vida, mas sabemos que a qualquer momento ela nos assaltará.
Essa realidade é tão triste, que todos achamos que só acontece com o vizinho. Eu já não penso mais assim, pois ela já bateu à porta da minha casa e levou um ente querido. Sei que é uma lei universal, e sua guardiã não é corrupta. Para a Morte não há acepção de pessoas, ela só respeita a vez de cada um, na grande fila da vida.
Aos que se foram minhas saudades, e aos que ainda irão minha admoestação:
Viva com os dois pés no mundo e a cabeça na cova.  A morte é real, queira você ou não. Então faça bonito, para que sua lembrança cause prazer e não dor, àqueles a quem sua memória assaltará.

Leila Castanha

2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

PROFISSÃO: PROFESSOR?

     
Cuido de crianças enquanto seus pais vão ganhar o pão de cada dia. Não posso descuidar-me de nenhuma para não haver brigas ou qualquer outro tipo de violência entre elas. Cuido para que aprendam conviver em sociedade e respeitem-se mutuamente.
Trabalho com a mente humana e suas complexidades, trazendo o indivíduo ao conhecimento do seu Eu, e ajudando-o a encontrar-se consigo mesmo.
Meu ofício é, também, assegurar a integridade física de dezenas de adolescentes e impedir sua evasão de dentro do recinto , para evitar estranhamento entre eles. E, se no local em que se encontram reclusos houver tumultos e violência entre si, meu dever me força a intervir, a despeito de minha segurança.
Trabalho como mediador, conciliando os que agem de modo ostensivo e contornando os desentendimentos entre as partes, na busca por soluções rápidas e precisas para evitar maiores conflitos.
Sou a pessoa que está grande parte do meu tempo com eles: ouço-os, aconselho-os e os disciplino, quando necessário.  Procuro orientá-los a fazer boas escolhas e construir um bom futuro. Quando crescem e se vão, torço que tenham me dado ouvido e me façam sentir orgulho deles.
Sou ao mesmo tempo: babá, psicóloga, carcereiro, assistente social, mãe e professora, embora tenha  escolhido e me formado para exercer apenas uma dessas funções, pela qual me estribei nos bancos universitários e concorri a concursos a fim de assumi-la.
Sou, única e simplesmente, professora. No entanto, devido à falta de seriedade de nossos governantes, tenho que assumir cargos nos quais não fui habilitada.
E o pior é que, apesar de ser um profissional múltiplo, com múltiplos alunos, que chegam com múltiplos problemas de suas casas, e que dependem de mim para encontrar múltiplas soluções para os seus múltiplos conflitos, trabalho numa escola com múltiplas defasagens, e ainda há quem tenha a cara de pau de me pagar um salário multifacetado.
Sou professora. Um ser humano com limitadas condições de trabalho e de vida (devido ao pouco salário e a falta de infra-estrutura no ambiente profissional), trabalhando em um órgão comandado por políticos limitados, com limitada visão educacional, cuja incompetência limita o nosso trabalho, limita o nosso salário e, consequentemente, limita o futuro do nosso país.
Sou professora. Amo o que faço, e pretendo dar o melhor de mim a fim de educar os filhos deste país. Todavia, acredito que o Brasil só terá solução quando os políticos perceberem que um país sem educação só terá a aprender a falta de respeito ao próximo, herdada de seus governantes, que surrupiam o direito popular e fingem para população que se preocupa com a educação, ao mesmo tempo  que exigem que os professores trabalhem sem estímulo algum, forçando os mais desanimados a fingirem que ensinam, enquanto passam, indistintamente, em nome da chamada progressão continuada, um sem número de alunos, que, por sua vez,  fingem que aprendem.
Futuros líderes de uma nação que tem como espelho políticos que só pensam legislar em causa própria, desprezando àqueles que o constituíram seus representantes.
 Líderes quais espelhos embaçados, onde a moral e a ética não se podem enxergar e que, com suas atitudes, levam nossos jovens a aprenderem o egoísmo, a indiferença e a corrupção.
Líderes sem escrúpulos que no lugar de um eficiente sistema educacional fazem o povo regressar aos tempos da caverna, onde a sobrevivência fica por conta, não dos mais dedicados e prendados, mas dos mais ágeis, dos mais espertos, e dos mais fortes.
Sou professora. Mais não me cabe mais ensinar a disciplina na qual me habilitei, pois o momento urge o ensino da ética e da moral, pois sem a consciência das mesmas, nem sequer consigo lecionar.
Para grande parte dos educandos a vida é um jogo, onde tudo depende da sorte, e não da qualidade de sua educação. 
Sou professora, tentando trabalhar em um país que menospreza o conhecimento, cujos líderes estão pouco a pouco deixando como legado para as futuras gerações a ignorância, cuja filha é a violência, e que tem por pai  a ganância, que, por sua vez, é gerada pelo  egoísmo humano.

Leila Castanha
25/05/2014


sábado, 8 de fevereiro de 2014

MORO NO JANGADEIRO


Na verdade, já fiquei muito tempo matutando o porquê desse nome. A conclusão que chego é sempre a mesma: A julgar pela experiência, creio ter sido alguém que ao ver  o descaso público com que se trata o povo da periferia, resolveu nomear o lugar indicando suas ruas alagadas pelas enchentes, que somente com jangadas e, consequentemente, com a ajuda de um bom jangadeiro, a população poderia salvar-se. É, acho que faz sentido... Mas, o endereço não ficaria completo se eu omitisse que meu bairro pertence ao distrito do Capão Redondo, outro bairro irmão do meu.

Capão Redondo... Ninguém merece morar em um lugar com esse nome! Li na internet que o nome “Capão” foi motivado pela capoeira (matagal) que rodeava o lugar, antes dele ser populado, e “Redondo”, porque ficava num local alto de onde se via os quatro cantos. 

Se isto é verdade não sei, mas, supondo que  assim fora, talvez a mesma fertilidade da terra em produzir matos tenha atingido seus moradores para gerar gente. Em cada beco há dezenas de casinhas de cujo interior brotam tantas pessoas como se fossem galhos de árvores frutíferas em plena estação. Quanto ao nome “Redondo”, não sei se a informação que colhi da internet procede, mas, sem dúvida, coincide com a situação dos moradores deste bairro que apesar de viverem correndo dia a dia para vencerem na vida, estão sempre andamos em círculos e voltando ao mesmo lugar: ao centro da miséria, de onde só podem ver de longe os que, a custo de seu trabalho, vivem no centro da riqueza de nosso país.

E a rua?... Abílio César. Demorei a descobrir que tipo de pessoa era esse Abílio:  desbravador, general, capitão, imperador ou político brasileiro renomado. Mas, a persistência me levou a informações populares que afirmava ter sido o Abílio um dono de terras aqui da própria área.  O César que ostentava no nome nada tinha a ver com os imperadores romanos. Era, na verdade, um “jangadeirense”. Dono de terras na dita rua e um cabra muito rico aos olhos dos muito pobres que povoavam essa vila. Era um sujeito cheio das terra! – contavam, em seu português sem glamour, os periféricos mais antigos, os contadores de história do bairro.

E isso tem muito em periferias: Sempre há um bom contador de histórias. Um sabe-tudo da região. Geralmente são idosos, cujo benefício dos anos lhes dá toda a liberdade de acrescentar um bocadinho aqui, um bocadinho ali, já que seus ouvintes não estiveram lá para desmenti-los. Adoram contar do passado como sendo “os belos anos dourados que não voltam nunca mais”. Se viveram na guerra fria ou participaram da segunda guerra mundial - fatos históricos nem um pouco desejados por ninguém – afirmam não mais haver gente tão patriota e valente como os camaradas daquele tempo. De qualquer modo, aquilo sim, era tempo bom!!! E não é que com essa conversinha saudosista e o jeitinho de contar vantagem pra cima da gente, eles se mostram inspiradores para a nova geração!!!

 Voltemos ao Janga. Desculpe, esqueci de frisar que esse é o nome carinhoso que os “jangadeirenses” dão ao nosso bairro. Os jovens adoram gritar o jargão: Moro na maloca, mesmo, e com muito orgulho! Talvez, aprenderam com os velhos contadores de história a fazer limonada dos limões de sua vila. E, enquanto sentem orgulho da miséria ela vai crescendo cada vez mais: São casas sendo construídas sobre o córrego que beira as casas (ou melhor, as casas que beiram o córrego que já estava lá  quando os moradores construíram em seu leito); São as enchentes que devastam as casas por causa das construções que barram a passagem das águas e as fazem transbordar; São as límpidas águas do córrego, que ao invés de peixes, exibem os dejetos despejados pelos esgotos feito pelo povo; São encomendas que não chegam porque o carteiro foi roubado e tem medo de trabalhar na área; São entregas de lojas rejeitadas pela violência do lugar e assim por diante.

Não acho que isso é motivo de orgulho, mas de vergonha.   Porém, ninguém gosta de viver com vergonha de sua situação, então, mentimos que temos orgulho.  

Campanhas após campanhas incentivam nossos jovens a se apropriarem de seus espaços, que lhe são por direito. Idas aos shoppings, cinemas e outros lugares de lazer e cultura. No entanto, se em um lugar luxuoso detecta-se qualquer vestígio de pobreza, na roupa, calçado, ou até mesmo nos trejeitos do pobre infeliz, imediatamente, o preconceito grita nos olhos dos seguranças que a periferia não é bem vinda em tais locais. A desgraça da pobreza é tão desgraçada que os próprios pobres repelem os de sua classe, como se vê no infeliz trabalho dos seguranças, que, apesar, de a grande maioria ser de pobres, tem por ofício, ter preconceito contra os periféricos.

E, com que cara estacionaremos o nosso fusca ou nosso bem cuidado fiatizinho nos estacionamentos de um Shopping Iguatemi ou em frente a um restaurante nas áreas dos Jardins? Não, os mais tímidos ou talvez, os mais racionais, simplesmente preferem não ir a ser humilhados.

Daí vem a explicação do jargão da mocidade que diz sentir orgulho de sua pobreza. Não creio que seja orgulho, mas gratidão por serem aceitos como são: Pobres e sonhadores. Aqui, no Janga, os sonhos não têm preço. No mundo dos ricos, todavia, é proibido sonhar. Lá é lugar de quem já realizou sonhos, lugar de vivê-los. Na periferia não, é a maior fábrica de sonhos do mundo. Por isso um determinado político, acometido por um segundo de lucidez e sinceridade, afirmou com toda razão: A pátria do pobre está sempre no futuro.

Assim, como autêntica periférica, uno a minha voz sem som algum para os poderosos, mas, bem entendida para os irmãos de classe social:

Lutemos, irmãos periféricos de todas as vilas, equipando-nos das armas do conhecimento, para que no futuro as lágrimas que derramamos a cada vez que não conseguimos alçar um objetivo, nos leve, qual bom jangadeiro, a guiar a jangada de nossa vida até o porto seguro de nossos ideais.

Leila Castanha
02/2013

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

ESTOU DE DIETA


“Estou de dieta!” Anunciei  à minha família.  “Está de regime?” Perguntou algum engraçadinho. Pensei por um minuto e respondi com o orgulho ferido: “Não, estou de dieta, regime é para obesos.”

Menti tão bem que quase acreditei na minha própria mentira. Claro que eu estava de regime, afinal, o propósito do meu sacrifício era para EMAGRECER. Mas admitir isso era o mesmo que admitir que eu estava GORDA. Isso nunca!!! Cheinha, fofinha,  talvez, mas GORDA, jamais!

Algumas semanas passaram e após o regime e muitos copos de berinjela com limão, me surpreendi ao pesar-me: “Uau! - Pensei tentando conter minha vontade de gritar -  Emagreci dez quilos!”

A partir de então, sempre que uma roupa entrava em mim eu mandava tirar fotos. Depois, eu ficava horas a fio comparando o antes e o depois. Pegava as fotos e mostrava a minha família: “Olha como emagreci! Nossa! como eu estava GORDA!”

E tinha mais: Eu fazia questão que me achassem gorda nas fotos anteriores ao meu regime. Agora era elogio. Se eles admitiam que eu era  gorda, significava que concordavam  que eu havia emagrecido mesmo. O problema era quando alguém dizia que não havia reparado a mudança.  Eu tinha vontade de socar essa alma penada, mas contentava-me em apenas ouvir uma vozinha  cheia de despeito gritar lá do fundo do meu orgulho ferido: “Ô inveja!”

 Meus parentes, que há muito não me viam, não escondiam a surpresa em me ver tão esbelta e BONITA! Eram tão convincentes em seus elogios que até deixei postarem fotos minhas no facebook.  E olha que odeio me expor! Mas, conforme alguns diziam, seria um desperdício fazer tanto esforço para emagrecer e não deixar as pessoas constatarem.

Como disse, emagreci dez quilos e estava sorrindo a toa. Muitas vezes, quando eu passava por alguma gordinha sentia um misto de  pena dela  e orgulho da minha força de vontade. “Quem dera fosse tão determinada quanto eu!”

Talvez, hoje eu esteja pagando pelos meus pensamentos anti-gordinhos e meu sentimento de altivez, pois, apesar de meu sucesso em emagrecer e do reconhecimento da maior parte do público, um dia flagrei-me com a boca cheia de doces. Ai, que ódio que senti de mim! Não pude crer que tive uma recaída.

- Não!. - Pensei, afastando o pensamento que tentava me afundar na culpa. - Não sou uma drogada para ter recaídas”.

Enquanto ganhava tempo imaginando a desculpa perfeita para a minha consciência me deixar em paz, enchia cada vez mais meu estômago de porcarias açucaradas e gordurosas.

Nos três primeiros dias, lembrei-me de vomitar. E acredite: Senti-me tão leve como se tivesse malhado horas

Mesmo assim, corri ao espelho para ver se o mal já tinha surtido efeito. Examinei o meu rosto e detectei que ainda estava com aspecto magro.  Os braços não grudavam na manga da camiseta e a cintura ainda aparecia. Sorri aliviada e jurei a mim mesma que esta era a última vez que faria aquela loucura.

Dois dias depois me flagrei comendo um pote de sorvete de creme. A cada colherada meu cérebro se contorcia pela culpa e tentava enviar ao estômago a ordem de parar. O estômago doía e se retorcia como se quisesse convencer a boca de não enviar-lhe mais aquela delícia, que em poucos dias, amargaria como fel. Mas, as mãos não atendiam ao apelo da boca que, sem escolha, recebia mais e mais colheradas daquele demônio gelado.

Após comer o primeiro pote, veio o segundo (comprado só para o outro dia), mas eu sabia o que fazer: Vomitei tudinho e me senti “limpa” de novo.

Outros desvarios se repetiram e em um desses dias em que o pecado vence o pecador, fui vencida pela gula. Desta vez era comida saudável, mas a qualidade foi equiparada a quantidade. Caprichei, embora só descobri isso depois de ter limpado o prato. Os olhos (maior do que a boca) davam uma rápida examinada no corpo e mentiam-me dizendo que não comi muito, mas a consciência (Ô bichinha chata!) essa não me dava sossego, repetindo sua ladainha: “Você é louca? Quer virar uma baleia?!”

Atordoada pela culpa tentei ser mais forte do que ela e deixei passar uns minutinhos antes de botar as tripas para fora. Já que pequei, pensei que deveria  curtir mais um pouco o sabor do pecado antes de expurgá-lo para fora de mim. Nesse meio-tempo precisei fazer alguma coisa urgente  e, meia hora depois, soltei um grito de pavor: “Meu Deus! Esqueci de vomitar!”

Corri para o espelho e olhei minhas bochechas. “Ufa! - Pensei, aliviada. – Parece que ainda estão do mesmo jeito.” Fiz o mesmo com o resto do corpo e comprovei que estava tudo em cima. Senti-me a pessoa mais sortuda do mundo: Depois de tanto esforço para emagrecer, finalmente consegui  alçar a minha meta e agora meu corpo parece ter preguiça de engordar de novo.  Soltei um largo sorriso que, aos poucos, foi virando risada e, por fim, meus filhos me acharam às gargalhadas:

- O que aconteceu, mamãe?, perguntaram-me como se houvessem visto fantasmas.

-O que não aconteceu, queridos! - respondi-lhes nos intervalos das risadas. - Eu não engordei nadinha!”

É verdade que meus filhos também não entenderam nadinha, mas eu estava tão feliz que não podia interromper aquele momento para explicá-los.

Dias depois, me deparei com novos sorvetes, doces e balas. O almoço já estava com uma ou duas colheradas a mais.

Quando me sentia culpada fingia que não havia comido muito e pronto!

A essa altura eu não tinha mais tempo para vomitar. Os afazeres deixavam-me tempo apenas para beliscar algumas guloseimas e voltar ao trabalho.

Aos poucos percebi que uma ou outra peça não cabia mais em mim e observei algumas gordurinhas em volta da minha cintura. O rosto não sei como está, porque faz tempo que não tenho coragem de me olhar no espelho.

Não sei exatamente o quanto engordei, mas com certeza achei alguns quilinhos que havia perdido em meu regime.

Meu marido diz que estou bem, mas não posso acreditar nele porque os homens sabem que se quiserem viver jamais devem dizer a uma mulher que ela está gorda. E ele é um homem muito inteligente!

Meus filhos me amam e jamais me magoariam. Os parentes são educados e aprenderam que nunca devem esconder um elogio, da mesma forma que não devem dizer tudo o que pensam. Só me restou você, que não é meu amigo e nem meu inimigo.

Mas não se preocupe , não vou colocá-lo contra a parede, pois desde pequena fui ensinada que não devo perguntar o que não quero ouvir. E ai de você se disser que estou gorda! Aliás, não sei por que as pessoas confundem tanto as "cheinhas" com as gordas!

Até mais, caro leitor, e assim que recuperar o peso que perdi e depois encontrei, postarei muitas fotos no meu facebook.

Mas, até lá não me censure, pois já me bastam as lágrimas diárias, e, além disso,  você já leu o que Jesus disse  aos que adoram acusar?

“Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra!”

Será que você nunca teve uma recaída?


Leila Castanha

01-12-2014

sábado, 14 de dezembro de 2013

DIA TRISTE


Imagem extraída de https://banner2.kisspng.com




Estou triste. Sinto náuseas e a cabeça não para de girar. Minhas mãos tremulam e sinto um peso no coração. Chego a pensar que vou ter um infarto. Minhas lágrimas desobedecem minha ordem e precipitam-se pela face triste, uma após a outra, até tornarem-se grossas torrentes.
Deito-me para tentar dormir a fim de esquecer minha tristeza. Cubro a cabeça para que ninguém me veja chorar. Na verdade, não estou mais chorando, mas as lágrimas não cessam, como se a mente decidisse por fim àquele drama, mas o coração insistisse em derramar sua angústia.
Fecho os olhos e tento dormir sob o escuro do cobertor. Proíbo-me de pensar em qualquer coisa para que não desatine no choro outra vez. A mente se rebela contra a ordem do meu cérebro, e lá vou eu pensando de novo.
Briguei com meu amor. Ele saiu de casa, magoado e sem me dirigir a palavra. Sei que tive razão de embravecer-me com ele, mas não consigo me perdoar mesmo assim.
Ele saiu cedo e ainda não voltou. É tarde e a negritude já cobriu o horizonte. As portas e janelas das casas se fecharam e ele ainda não chegou ao lar. Eu, ao contrário, não fui a lugar nenhum. Não consigo afastar-me de meu leito de dor. 
Sinto que estou doente. Tudo me dói: A cabeça, a nuca, os braços, os ossos, o coração e a alma. Choro de novo e soluço incontrolavelmente. Viro e reviro-me na cama, mas a dor não passa e o sono não vem. Quero desmaiar de cansaço, como saída para apagar a minha dor. Não consigo desmaiar nem adormeço. Seco os olhos tristes e assuo o nariz que me impede a respiração.
Já se passaram várias horas e a dor continua doendo como no início de minha discussão. Quero sumir! Quero morrer! Quero evaporar! Inútil! Eu e minha dor estamos unidas como unha e carne.
Olho-me no espelho e tento ver minhas qualidades a fim de consolar-me. Sou bonita! Sou feminina! Sou mulher! Sorrio meio sem graça ao ouvir meus pensamentos tentando animar-me. Olho-me nos olhos e não encontro luz. Meus olhos parecem tristes e vazios. De repente, vejo um luzir intenso saltando para a órbita ocular. Minha visão se embaça, e as lágrimas explodem como cachoeira, tomando conta de minha face.
Não posso sorrir, por mais que tente. Não posso pensar positivo, apesar de meus esforços. Tento mentir para o meu coração, mas ele não me dá ouvidos. Olho para mim, mas não me encontro. Tento consolar-me, mas não consigo. Choro outra vez.
Deito-me encurvada como uma criança no ventre materno. Sinto-me desprotegida e solitária.
Ouço o barulho do molho de chaves e, em seguida, passos que atravessam a casa. Fico imóvel com o rosto sob a coberta que me protege do mundo exterior. A porta do quarto se abre, mas ninguém fala nada. Um barulho mudo se faz presente ao redor de minha cama e os passos me são familiar.  “É ele!” - penso fingindo ignorar sua presença. Os passos se afastam  para outro cômodo e meu coração se desespera.
Eu o quero, o desejo, e necessito de sua presença! Mas o orgulho me proíbe de chamar o seu nome. Ele demora-se e eu invento uma desculpa para ir onde ele está. Levanto-me e vou beber água. Passo por ele, mas ninguém se pronuncia.  Ele esquenta um café e eu encho o copo de água. Encontramos-nos no meio da cozinha e cada qual, em silêncio, recua para que o outro passe.
Volto à cama. Ele liga a Tv na sala. Sinto as lágrimas me molharem o rosto já queimado pelas várias tentativas de enxugá-las. Gemo baixinho e aperto os olhos na tentativa de expulsar a última gota. Não quero mais chorar  por causa dele.
Deixo os minutos passarem até que percebo o  óbvio: Não choro por causa dele, mas por minha causa. Não consigo viver sem a sua companhia, pois o mundo sem ele é um enorme borrão cinzento.
Assuo o nariz e engulo o orgulho que me sufoca. Chamo o seu nome com a voz ainda embargada. Ele aparece a minha frente, no quarto. Digo-lhe que estou passando mal e preciso de sua ajuda. Ele se agita e me pergunta o que sinto.
“Nada de mais” - respondo-lhe, fitando-o com os olhos inchados de chorar – “apenas me abrace”.
Ele tem a cara amarrada, mas mesmo assim se deita ao meu lado e põe o braço em cima do meu corpo tenso e faminto de seu amor.
Choro de novo. Ele aperta-me contra o corpo e pergunta, com a voz um pouco travada, se estou sentindo alguma coisa. Penso que me sinto a pessoa mais feliz do mundo, mas digo-lhe apenas que estou bem. Ele cala-se, enquanto eu viro-me e olho para ele.  Dou um sorriso amarelo e, apesar de contragosto, ele me corresponde. Fecho os olhos, aperto-lhe o braço sobre o meu corpo e só então pego no sono.


Leila Castanha
13/12/2013


terça-feira, 19 de novembro de 2013

A FASE




“Não vejo a hora de sumir desta casa!" - ouvi uma voz aos berros -“Droga de vida! Não sei pra quê nasci...”
Em seguida, ouvi uma pancada na porta, que pela distância do barulho deduzi vir de um dos quartos. Respirei fundo e continuei a lavar a roupa suja.
O som da música, quase no último volume, bailava pela casa afora enquanto eu tentava segurar o ritmo alucinado que dava nós nos miolos dentro da minha cabeça. Já  sem paciência, larguei a roupa sob o tanque e disparei até o local do desatino.
“Que é isso?!” - falei o mais alto que pude, tentando vencer a altura do som do rádio e a cantoria da autora do show ensurdecedor.
Vi diante de meus olhos perplexos a imagem de uma pedra: Surda, cega, e totalmente alheia a minha presença. O som continuou no mesmo volume e a cantoria em nada foi alterada.
“Fulana!!!” Gritei segurando meus nervos que já estavam a flor da pele.
“Que é?!” Gritou a garota, voltando o rosto em minha direção com um olhar cheio de ressentimento e a respiração frenética.
“Você tá doida?!”- As palavras saíram de minha boca sem meu consentimento - “Quer me enlouquecer?!”
“Eu odeio esta casa!”, disse-me, enquanto desligava o alarmante som.
Com a mesma brutalidade com que desligara o aparelho, jogou-se na cama de bruços, como se não houvesse ninguém mais no quarto, além de si mesma e sua rebeldia.
“Qual é o seu problema?”, perguntei-lhe tentando entender o que causara aquele comportamento.
“Meu problema é ter nascido.” - respondeu-me, sem voltar-me o rosto.
Sentindo uma pontada de desapontamento por não tê-la  educado adequadamente, preparei-me para desfazer meu erro colocando juízo naquela cabeça. Abri a boca para deixar fluir as palavras que lhe mostraria quão privilegiada era por ter nascido em nosso lar:
“Escute filha...” - Foi tudo que consegui falar, pois, com agilidade, roubou-me a vez da fala e substituiu todas aquelas belas frases que ensaiei e as resumiu em três ou quatro palavras: “Blá, blá,blá, blá...” - Repetia, enquanto olhava-me com desdém - “Vai começar tudo de novo, mãe? Já sei de cor tudo que você vai falar”.
 Sem tempo de recuperar-me do choque, olhei para aqueles olhos frios, e como recompensa pela minha criação recebi de sua boca um som ininteligível, que se articulado em palavras seria mais ou menos assim: Dammmmmm!
Saí daquele quarto as pressas, tentando esquecer minha posição de autoridade já  que a ideia que me ocorria no momento era meter a mão naquele rosto que tanto beijei.
“Não!” - sussurrava-me o bom senso e o amor materno - “Perca agora para ganhar depois”.
“Ganhar o quê?” - gritava meu orgulho ferido - “Uma filha ingrata e uma gastrite nervosa?!”
Enquanto era vítima de meus conflitos interiores, andei pela casa para evitar agir por impulso. Ao chegar de volta ao tanque peguei a primeira roupa que me veio à mão quando senti meu corpo e minha alma sacolejarem aturdidos por um grito agudo e estridente que irrompeu pela casa: “Mãeeeeeeee!   Manda esse moleque parar de me encher o saco, ou vou arrebentá-lo!”
Foi a gota d’água: Joguei a roupa no tanque e saí guiada pela ira que me possuía. Dirigi-me ao quarto com o intuito de liberar toda a minha raiva. Entrei, bati a porta com violência, joguei-me na cama de bruços e pus-me a chorar: “Que droga de vida!” - Falei entre soluços - “Não vejo a hora de sumir dessa casa!”.
Abri os olhos e ao lado da minha cama vi o mesmo rosto familiar que quis estapear horas antes, de cujos lábios emanaram uma voz doce e branda: “Mãe, tá tudo bem com você?”
“Tá, sim, filha”, respondi-lhe entre soluços,  “É só uma fase que estou passando!”.
Levantei-me, lavei o rosto embebido em lágrimas, olhei-me no espelho, e sentindo-me ridícula, sorri ao relembrar da cena embaraçosa: “Deus, que fase louca que estou vivendo!... Virei mãe de adolescente!!! 
“Calma!” Reconheci a voz da experiência: “É só uma fase! Isso passa...”

Leila Castanha
11/2013