terça-feira, 28 de maio de 2013

PARTE DE MIM



Solidão. Um vazio na alma que não sei explicar. Falta de algo que me faz roer as unhas e deixa-me visivelmente inquieta.
Noite vazia e o sono não vem. Rolo na cama a procura de uma posição confortável que me expulse a insônia e me embale num sono profundo até que o dia amanheça. No entanto, os olhos continuam escancarados, vidrados no teto descascado sobre a cama, olhando tudo e nada vendo. São olhares dispersos no nada. Quem vê e quem sente são os pensamentos que escapam as rédeas de meu querer e se perde a procura de uma razão para meu mal estar.
Mente solta e o pensamento a rondar cada resquício de conjecturas que podem me fazer chegar à razão final de meu vazio. Procuro longa e detalhadamente em cada canto de meus lugares costumeiros para ver se acho uma justificativa.
Em pensamentos, adentro a faculdade e deparo-me com mil preocupações que circundam ao redor de trabalhos acadêmicos, testes para nota, cuidados com o limite de faltas, enfim... Entro e saio do ambiente universitário e concluo que tais motivos não seriam suficientes para me tirar os pés do chão. Sou capaz! Penso aliviada. Isso não pode me derrubar!
Viajo, então, pelas vias do pensamento e chego à porta de meu trabalho. Está fechada. Penso, reflito e lembro-me que estou fora da classe trabalhista, estou desempregada. Por um instante, acho que encontrei a causa de meus infortúnios.  Sem emprego, sem dinheiro, sem vida.
 Procuro na memória a soma de minhas contas e descubro que são mais altas do que posso pagar. Minha cabeça gira e tenho vontade de chorar. Sinto-me encurralada com medo dos credores que certamente exigirão de mim a parte que lhes devo. Mas, apesar de minha angústia, sinto que ainda não é esta a causa de meu mal estar, porque já me senti assim antes, mesmo quando não devia a ninguém e podia considerar-me financeiramente estável.
Desta vez é como se um pedaço de mim estivesse perdido. É como se um lado do meu Eu houvesse ficado comigo e o outro se encontrasse em algum lugar distante. O sentimento não era de perda, mas de distanciamento. Como se um bichinho corroesse o fio de minhas alegrias e ameaçasse parti-los a qualquer momento. Sinto vontade de me encolher e chorar.
Fecho os olhos e respiro fundo. Não vejo motivo para tanta tristeza e vazio! Ralho comigo mesma e peço que me recomponha a fim de pensar melhor. Sento-me ao leito e olho para o lado de minha cama onde jaz um travesseiro preguiçoso. Apoio meus cotovelos nele e fico reclinada, com a cabeça apoiada nas mãos e os olhos correndo o quarto a procura de descobrir algo que me ajude a retornar ao meu estado de euforia.
Sinto um cheiro familiar. Uma sombra começa a tomar forma em minha imaginação. Com ela a mente vaga a procura de uma identidade. Baixo os olhos e pairo sobre o lugar vazio ao meu lado. Abraço o travesseiro frio e finalmente entendo o que sinto.
Sinto falta dele, que há poucos dias saiu a trabalhar em outra cidade, pernoitando no serviço devido à distância de nosso lar. É o meu pedaço que se afastou de mim e que, a princípio, nem notei. É o meu lado ausente que só hoje me dei conta porque o coração resolveu gritar sua falta. É o meu Eu que se foi deixando-me incompleta. É o Tu que misturado ao meu Eu transformou-se em Nós, cujas amarras me enlaçam e me envolvem de tal forma que já não posso me desprender.
 Não sinto falta dele, mas de nós. Somos um, assim como o peixe não pode subsistir sem a água e o fôlego não subsiste sem o oxigênio. Sinto saudades de mim, do meu outro Eu que me traz alegria e completude. Sinto falta da minha outra metade cuja presença espanta minha solidão. Sinto-me mal porque ninguém há que se contente em perder um pedaço de si mesmo. Somos únicos, somos um. Estou com saudade!
Acaricio o travesseiro como se fosse seu rosto e murmuro tendo na face uma lágrima quente e um sorriso tímido: “Para com isso, que infantilidade! Você é autossuficiente!”.
E lá do recôndito de minha alma ouvi o grito do meu coração que gemia: “É tarde! Ele já faz parte de mim!”.
Então, vencida pelo argumento do meu coração, enxuguei as lágrimas, peguei o celular e disquei um número gravado:
-Alô! - Disse a voz do outro lado.
-Te amo! - Respondi quase sem ser ouvida.
-Tá tudo bem?” - Perguntou-me a voz, sem entender o que se passava.
-Tudo! - Respondi mais recomposta. - Só liguei pra dizer que te amo.
-Eu também te amo - Respondeu-me, confuso.
Desliguei o telefone, deitei-me do seu lado da cama, abracei o travesseiro e dormi embalada pelo eco de sua voz a sussurrar em meus ouvidos:
 “Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo!”.

Leila Castanha
28/05/2013






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