sexta-feira, 28 de junho de 2013

SENTIMENTOS MISTOS



Estou experimentando um misto  de sentimentos. Sinto-me extremamente feliz por gozar a presença de entes queridos, todavia, suas presenças me reportam a ausências significativas em nossas vidas. Tenho a gostosa sensação de reviver felizes momentos remotos e ao mesmo tempo, sinto um aperto doído no peito pela constatação de que nem tudo mudou para melhor. São marcas que percebo em nossos rostos e em nossas almas que não são bem vindas. Doenças que tiram o prazer da companhia, lembranças de tempos passados, dos quais nunca mais vamos poder nos apoderar para consertarmos algo que por algum motivo saiu errado, e alterou de forma ruim o nosso presente. Tempos não aproveitados ou mal usados, amizades perdidas ou não efetuadas, sorrisos negados ou mal distribuídos, confiança depositada em pessoas erradas e descrédito em alguém que descobrimos mais tarde ser merecedor de nossa amizade.
Sinto um grande bem estar por todos os nossos objetivos alcançados e até pelas histórias que dantes nos fez chorar, mas que hoje zombamos delas com deliciosas gargalhadas. Os trejeitos antigos dos nossos entes próximos surpreende-nos a memória e voltamos a rir uns dos outros, denunciando o quanto observadores somos em relação a quem nos interessa nesta vida.
Mas, a tristeza me sobrevém ao perceber olhares folgazes, de repente pararem estáticos e formarem na testa tensa algumas rugas de preocupação. Não são marcas criadas no improviso do momento, mas previamente desenhadas com o passar dos anos e o aumento do peso da responsabilidade que a vida nos impôs. Rugas e marcas que teimam a acentuar-se não obstante nosso esforço em expurga-las. Coisas dos anos, mas também marcas da vida.
Estou feliz e triste ao mesmo tempo.  Feliz por ver que muitos estão bem: bem casados, bem amados, bem dispostos com a vida, bem de aparência, rostos joviais e bem conservados, a despeito dos acúmulos dos dias e das dívidas diárias. Estou triste por saber que ninguém está totalmente bem de verdade, mas todos vivemos sob constante ameaças: Não há bom casamento que vá de vento em popa sem a devida providência monetária no decorrer dos anos de comum vivência; não há amor, de espécie alguma, que seja forte o bastante quando falta o necessário que a vida exige, seja dinheiro, saúde, trabalho, ou qualquer outra coisa; A aparência, até ela se deteriora quando nossas mentes entram em parafuso diante das “falturas”, que, somente quando supridas, nos fazem iluminar o rosto e desenhar nele um belo sorriso. A tristeza ronda a casa onde não há a dignidade em todos os âmbitos da vida, e diante das prolongadas situações de carência o bolso se esvazia, a mente se sobrecarrega, a alma se seca, o rosto é castigado e o corpo se definha.
Estou feliz porque estamos todos bem, na medida do possível, porém, trago dentro de mim uma grande parcela de tristeza, por saber que vivemos num país rico e abençoado por Deus, e seria perfeitamente possível que a medida de nosso bem estar fosse muitissimamente melhor: cada um com seu digno salário, tendo a saúde tratada com primazia, com condições de oferecer lazer a sua família, e todos nós VIVENDO a vida, ao invés de apenas continuarmos em algum lugar desse Brasil, pagando impostos para termos direito, apenas, de continuarmos EXISTINDO.
Vejo por trás de belas aparências, um histórico de sofrível enfermidade, que graças a força interior de quem a padece, a aparência saudável lhe salva do justo julgamento.  Observo no rosto sereno e alegre a aparência tranquila de um coração que geme de saudade da sua cara metade. Mentes fortes e sãs que no afã de suas aflições nos trazem o bem estar de suas saudáveis companhias. Por isso, não posso me dar ao luxo de ser eu mesma e prossigo sorrindo sem ter sorriso e transformando meus dissabores em piada e minhas desilusões em brincadeiras, onde cada qual deve fingir que não passa de histórias da carochinha.
Estou aparentemente bem! Pelo menos nisso não decepcionei ninguém: Também sei fingir, sou boa atriz, excelente palhaço que faz a plateia se embolar de rir enquanto minha alma geme de tristeza.
Leila Castanha
06/2013

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